Tabela Price no financiamento de imóvel: o problema dos juros sobre juros
A tabela Price é o sistema de amortização mais usado em financiamento imobiliário no Brasil. As parcelas são iguais do primeiro ao último mês, mas essa igualdade aparente esconde uma composição que muda a cada competência entre juros e amortização, e é nessa composição que aparecem as divergências entre o que o contrato prevê e o que o banco cobra.
Reajuste fora do índice contratado, capitalização vedada, cobrança residual após a quitação e taxa efetiva maior que a nominal são os pontos que mais aparecem em perícia de tabela Price no financiamento de imóvel. Este artigo mostra como a Price funciona, como conferir o cálculo do banco e onde normalmente está o erro.
Sumário
O que é a tabela Price
Na tabela Price, o mutuário paga parcelas iguais ao longo de todo o contrato. Cada parcela é composta por dois elementos: amortização, que reduz o saldo devedor, e juros, que remuneram o capital emprestado. No início do contrato a maior parte da parcela é juros; ao final, é amortização.
A parcela é calculada pela fórmula P = V × [i(1+i)ⁿ] / [(1+i)ⁿ − 1], em que P é o valor da parcela, V é o valor financiado, i é a taxa de juros mensal e n é o número de parcelas.
Em um financiamento de R$ 300.000,00, taxa de 0,5% ao mês, 360 parcelas, a parcela resultante é de aproximadamente R$ 1.520,00. Na primeira competência, cerca de R$ 1.500,00 correspondem a juros e R$ 20,00 a amortização. Na última parcela essa proporção se inverte quase por completo.
SFH e SBPE: os dois regimes de financiamento imobiliário
Sistema Financeiro da Habitação (SFH)
O SFH limita a taxa de juros a 12% ao ano, nos termos da Lei 4.380/1964, e se aplica a financiamentos até o teto de valor fixado periodicamente pelo Conselho Monetário Nacional. O reajuste segue a Taxa Referencial ou índice de preços, conforme o contrato, e a operação é majoritariamente feita pela Caixa Econômica Federal.
Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo (SBPE)
O SBPE não tem limitação legal de taxa: banco e cliente negociam livremente, com contrato prefixado ou pós-fixado a IPCA ou outro índice. É o regime comum em financiamentos acima do teto do SFH ou em operações privadas com bancos como Itaú, Bradesco e Santander.
Como conferir se o banco calculou corretamente
- Obter o contrato completo, a tabela de amortização (ao menos os 12 primeiros e os 12 últimos meses) e os extratos de saldo devedor mês a mês.
- Identificar a taxa contratada: taxa nominal anual ou taxa mensal, e a cláusula de reajuste (TR, IPCA ou INPC).
- Reproduzir o cálculo da primeira parcela pela fórmula da Price e comparar com o valor cobrado; divergência acima de 1% indica erro na descrição da taxa ou no contrato.
- Conferir o saldo devedor mês a mês: juros do mês igual a saldo anterior multiplicado pela taxa mensal; amortização igual a parcela menos juros; saldo novo igual a saldo anterior menos amortização. Diferença superior a poucos reais, além do arredondamento, indica inconsistência.
Pontos de litígio mais frequentes em perícia de tabela Price
Capitalização de juros
A tabela Price, isoladamente, não configura anatocismo, entendimento pacificado pelo STJ. O problema aparece quando o banco incorpora ao saldo devedor multa ou juros de mora não pagos, que passam a gerar novos juros no mês seguinte. A verificação exige conferir, mês a mês, se há lançamento adicional ao saldo além da amortização programada.
Reajuste fora do índice contratado
O contrato define um índice (TR, IPCA ou INPC) e o banco aplica outro, ou reajusta a parcela por percentual não previsto. A conferência compara o índice divulgado pelo órgão oficial, IBGE para IPCA e INPC e Banco Central para TR, com o reajuste efetivamente aplicado em cada competência.
Cobrança residual após a quitação
Ao final do contrato, alguns bancos cobram valor adicional a título de saldo residual, sob alegação de resíduo não amortizado. Numa tabela Price corretamente calculada, a soma das parcelas paga integralmente o saldo devedor ao final do prazo; resíduo indica erro de cálculo ou reajuste indevido ao longo do contrato.
Taxa nominal e taxa efetiva
O contrato pode informar taxa nominal anual, convertida para taxa mensal por divisão simples, enquanto o banco cobra a taxa efetiva mensal, calculada por capitalização composta: (1 + taxa anual)^(1/12) − 1. A Resolução BCB 3.517/2008 exige a divulgação de ambas; a divergência entre a taxa informada e a aplicada é frequente em contratos antigos.
Alteração unilateral de taxa ou índice
Mudança de taxa de juros ou de índice de reajuste sem aditivo contratual assinado pelas partes é irregular, conforme jurisprudência pacífica do STJ sobre contratos bancários.
Memória de cálculo em perícia de tabela Price
O laudo pericial sobre tabela Price apresenta planilha mês a mês, com colunas para saldo devedor anterior, taxa aplicada, juros apurados, parcela contratada, amortização e saldo novo, o que permite identificar a competência exata em que surge a divergência entre o valor devido e o valor cobrado.
A tabela Price é um sistema de amortização válido e amplamente usado no Brasil. A divergência, quando existe, normalmente está na aplicação do reajuste, na capitalização indevida ou na taxa efetivamente cobrada, não na fórmula em si. A conferência técnica, com a memória de cálculo completa, é o que permite comprovar o desvio perante o banco ou em juízo.

Perguntas frequentes sobre a tabela Price no financiamento de imóvel
A tabela Price é ilegal ou configura anatocismo?
Não. O STJ pacificou que a tabela Price, por si só, não configura anatocismo. O problema surge quando há capitalização de encargos não previstos, como multa incorporada ao saldo devedor.
Qual é a diferença entre SFH e SBPE?
O SFH tem taxa limitada a 12% ao ano e se aplica a financiamentos dentro do teto de valor fixado pelo Conselho Monetário Nacional, geralmente pela Caixa. O SBPE não tem limite legal de taxa e é negociado livremente entre banco e cliente.
Como saber se o banco está reajustando a parcela corretamente?
Compare o índice previsto no contrato, TR, IPCA ou INPC, com o percentual efetivamente aplicado em cada reajuste, usando os valores oficiais divulgados pelo IBGE ou pelo Banco Central.
O que é cobrança residual e por que ela é questionável?
É o valor cobrado pelo banco após a quitação da última parcela, sob alegação de saldo não amortizado. Numa tabela Price calculada corretamente, a soma das parcelas paga integralmente o saldo devedor ao final do contrato, de modo que resíduo indica erro de cálculo ou reajuste indevido.
Quando vale a pena contratar perícia para revisar o financiamento?
Quando há suspeita de reajuste fora do índice contratado, cobrança residual após quitação ou divergência entre a taxa informada e a aplicada. A perícia reproduz o cálculo mês a mês e aponta onde está o desvio.
Como um perito contador atua na revisão da tabela Price no financiamento de imóvel?
O perito reproduz a memória de cálculo do contrato mês a mês, com a taxa e o índice pactuados, e compara o resultado com o que o banco efetivamente cobrou. Esse trabalho serve tanto para negociação extrajudicial quanto como prova técnica em ação revisional.
Tem um financiamento para conferir? Envie o contrato e o extrato de pagamentos e eu retorno com o diagnóstico. Fale comigo.




